quinta-feira, 30 de junho de 2011

Asas do destino - (Por: Marcos Woyames de Albuquerque)

Asas do destino
(Por: Marcos Woyames de Albuquerque)

Se era o meu destino, pois que fosse assim.
Naquela manhã o vento estava forte e mais frio que o de costume.
Do alto do penhasco eu avistava os primeiros raios de sol.
Desde que havia nascido, a altura não havia sido problema, mas hoje, especialmente hoje um certo receio me dominava.
Durante toda a minha vida meus pais me haviam preparado para aquele dia. Muito havíamos conversado e, apesar do receio, a ansiedade pela hora "h" se mostrava muito maior.
Não tinha medo de cair, isto já acontecera uma vez quando caí do ninho. Meu pai, um falcão rei, em um simples e espetacular mergulho, alcançou-me a meio caminho da morte certa. Não ficou impune a minha queda. No alto de minha coxa esquerda ainda resta a cicatriz deixada pela poderosa garra de papai.
Meu pai era um belíssimo exemplar de nossa espécie, talvez o maior falcão da região.
Seu piar era ouvido longe e tanto como ele, respeitado e temido por todos. Jamais alguém ousou invadir seu território.
Mamãe, como toda fêmea, tinha um porte menor, mas não por isso era menos bela.
Muito me orgulhava de meus pais.
Até aquele dia, haviam se revezado em muitos cuidados com minha criação.
Nem quero imaginar o quanto foi dura a decisão no momento de escolher entre meu irmão e eu. Foi a lei da natureza, eu era maior, mais forte, eu tinha mais chance de sobrevivência.
Enquanto não pude ficar só no ninho, cada um deles tomava conta de mim.
Era sempre assim, um comigo no ninho, o outro em busca do alimento, da caça.
Por falar em caçar... meu pai era um mestre nesta arte. Avistava seu objetivo a quilômetros de distância. Raríssimas as vezes em que o vi perder um ataque.
Meu pai tinha um nome a zelar... ave de rapina!
Não me canso de falar, o quanto eu me orgulhava e ainda me orgulho dele! Um dia ainda seria um falcão como ele.
Astuto, rápido, forte, seguro da minha capacidade, dono de um vôo régio.
Mas, a hora é chegada - frio na barriga - meu primeiro vôo.
Minha mãe passou muito de meu tempo de vida mostrando o que eu deveria fazer e agora, com sua asa aberta, era um exemplo de como deveria me posicionar, em relação ao vento.
Ela não fazia movimento algum, o vento ascendente, junto ao penhasco, batia em suas asas e pronto, mamãe se punha no ar. Diminuía a envergadura e pronto, de volta ao ninho.
Meu pai, sempre de poucas palavras, posicionou-se, no que agora sei, num ponto estratégico. Caso eu não conseguisse, ele novamente faria uso de seu mergulho veloz e de suas garras poderosas e, sabe lá Deus, eu ganharia uma nova cicatriz!
Lentamente, mas com segurança, mamãe usou seu bico e me levou, com leves empurrões, para a ponta da pedra onde meses atrás, junto com meu pai, construíra nosso lar.
O vento alvoroçava minhas penas. Minhas asas vacilantes não obedeciam a minha vontade de voar, mas ao meu receio de cair.
Minha mãe... incentivando.
Meu pai... calado, sério, observando.
Abri um pouco as asas e senti a força do vento empurrando meu corpo.
- Isso filho! Abre mais! ...Mãe é mãe!
Mais um pouco e quase levantei do chão. Meu corpo se desequilibrou, eu caí para trás.
- Levanta! Falou meu pai, com voz de quem quer ser obedecido.
Inseguro, trêmulo, me levantei e retornei à escarpa. Respirei fundo e ... asas abertas... pés fora do chão, sacode daqui pr'ali , dali pr'aqui.
- Estou voando, estou voandooooo!!!
- Calma! Mais uma vez meu pai grita. Minha asa esquerda se fecha com o susto, eu caio... me esborracho na pedra.
Pela primeira vez no dia de hoje, vejo meu pai com semblante calmo. Se aproxima e com toda paciência diz:
- Filho, voar é uma arte que requer ciência e consciência. Até que você assuma dentro de si, o vôo como seu meio de locomoção. Até que o incorpore aos seus reflexos, você terá que usar seu cérebro. Terá que pensar o tempo todo. Não deixe que a excitação tome conta da sua inteligência!
A forma tranqüila e firme com que meu pai falou naquele momento, me deu uma segurança tão grande, que prontamente me levantei e fui direto para a ponta do penhasco.
Respirei fundo, abri minhas asas e deixei que o vento me elevasse. A cada movimento, por mais leve que fosse, pude observar que meu corpo ia para um lado ou para outro.
Um leve mexer da cauda e prontamente era correspondido e aí, um novo movimento.
- Vamos filho, vamos nos afastar do penhasco. Não tenha medo, estou a seu lado.
Mais uma vez a voz firme de meu pai me dava segurança.
Um leve movimento de asas, um pouco mais para trás e lá fui eu... quanto mais atrás, mais veloz. Que coisa deliciosa é a velocidade!
- Calma filho, uma coisa de cada vez. Aprenda a sentir o vento, use as correntes de ar. Aprenda, vamos, aprenda!
Meu pai a meu lado, voando comigo, mais uma vez me sentia orgulhoso!
O dia foi passando e logo eu estava pronto, já voava sozinho.
Meus pais, lá no alto do penhasco, me observando.
O olhar terno de minha mãe e o peito elevado de meu pai diziam tudo.
Eu agora sabia voar, aos poucos iria caçar e um dia seria um falcão rei e dominaria um território, igualzinho a meu pai.
- Voar! Que coisa magnífica!
Me lembro de uma lenda que meu avô contou. Falava de uma gaivota que se rebelou. Uma gaivota especial que não quis ser como as outras e vir ao mundo apenas para se alimentar e procriar. Ela queria mais, ela queria voar. Voar mais alto, voar mais bonito, fazer manobras... fazer do vôo uma arte!
Fernão... acho que este era seu nome.
Fernão viveu e morreu por seu objetivo.
Talvez um dia eu faça isso... talvez um dia eu experimente novos vôos. Talvez um dia eu precise ousar mais.
Talvez um dia eu vá mais alto e mais rápido, mas por hora me contento em ser com eu pai... um falcão rei.
- Amor! Amor! Acorda! Acorda! Hora de trabalhar!
- Você dormiu lendo o livro do Richard Bach. Olha só, amassou o livro todo!
- Nossa, tive um sonho tão lindo! Não sou um falcão! Puxa, mas foi tão real!
- O que? Do que você está falando? Que falcão é este?
- Depois eu conto. Sabe amor, tenho tanto orgulho de meu pai!
- Amor, tem certeza de que está bem?
- Estou ótimo, ótimoooooooo!

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Sonhar como sonham os jovens (Por: Marcos Woyames de Albuquerque)

 

- Hã?- O Sr. não vai atravessar?- Sim... claro!-
Precisa de ajuda?- Hã?- Precisa de ajuda?- Está bem?
 O Sr. está passando bem?
- Estou, estou sim, apenas me perdi em meus pensamentos.
Não sei onde estava naquele momento!
Enquanto esperava para atravessar a rua meus pensamentos voaram, foram longe.
 Tão longe quanto a distância que nos separa.
Tão longe quanto o tempo que nos separa.
Não sei exatamente quanto tempo fiquei ali, parado, mas foi o suficiente para que o guarda de trânsito, que posicionado do outro lado da rua, me tivesse notado.
Certamente foram alguns minutos nos quais repassei uma vida.
 Não a minha vida, mas a vida que sonhamos.
Sei que jamais haverá uma vida inteira em comum, sei que jamais haveremos de viver por uma vida.
 Estou consciente de que no máximo teremos minutos, horas, exagerando teremos dias, porém, jamais passaremos disso.
É um sonho? Claro que é!
 Então, como num sonho, nossos minutos, nossas horas talvez nossos dias, serão a nossa vida. Viveremos tão intensamente, estaremos juntos tão intensamente, pertenceremos um ao outro com tanto fervor, que valerá por uma vida.
Não quero falar do que faremos, mas do que viveremos.
 Viveremos nossos sonhos. Todos aqueles sonhos que estamos alimentando há tanto tempo.
Todos aqueles sonhos que à distância imaginamos, juntos ou cada um por si, mas serão os sonhos que imaginamos para nós.
O passeio descalço na areia, o molhar os pés nas ondas, as mãos dadas ao entardecer, os olhares de cumplicidade, os beijos roubados, os rodopios abraçados, o beber no mesmo canudinho, a felicidade estampada no rosto, o voltar a ser jovem e, como jovens... namorar.
Naquele instante, parado na calçada, junto ao meio fio, eu viajei. Em minha viagem imaginei.
Em minha imaginação peguei em sua mão e, com sua mão segura na minha mão, eu me perdi.
Me perdi no meu sonho, me perdi no nosso sonho.
Naquele instante, parado na calçada, junto ao meio fio, mão na mão, eu me perdi.
 Me perdi da vida real.
Me encontrei na imaginação.
  Me encontrei no sonho...um sonho impossível que me faz amar você!
- O Sr. não vai atravessar?

terça-feira, 28 de junho de 2011

Amigo

Amigo é este que divide e compartilha visões
diferentes de ser,
agir, amar, pensar e apesar de todas as
diferenças adotam um
ponto em comum: a humildade e a
simplicidade que no final de
tudo nos permitem crer que as diferenças
são o "tudo" de melhor
que podemos ter, pois é através delas q
o ser percebe quão lindo
é o sentido da vida...aquele resumido
no encontro de
pessoas que
têm muito a aprender uma com
a outra sobre o verdadeiro
valor da
vida e da simples virtude e mágica
guardada em um sorriso...

pássaro encantado - Rubem Alves


Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo. Ele era um pássaro diferente de todos os demais: Era encantado. Os pássaros comuns, se a porta da gaiola estiver aberta, vão embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades...

Suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava.
Certa vez, voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão.

"- Menina, eu venho de montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco de encanto que eu vi, como presente para você...".

E assim ele começava a cantar as canções e as estórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro. Outra vez voltou vermelho como fogo, penacho dourado na cabeça.

"... Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. Minhas penas ficaram como aquele sol e eu trago canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes."

E de novo começavam as estórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isso voltava sempre.

Mas chegava sempre uma hora de tristeza.

"- Tenho que ir", ele dizia.

"- Por favor não vá, fico tão triste, terei saudades e vou chorar....".

"- Eu também terei saudades", dizia o pássaro.
- Eu também vou chorar. Mas eu vou lhe contar um segredo: As plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios... E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera da volta, que faz com que minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudades. Eu deixarei de ser um pássaro encantado e você deixará de me amar."

Assim ele partiu. A menina sozinha, chorava de tristeza à noite. Imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa destas noites que ela teve uma idéia malvada.
"- Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá; será meu para sempre. Nunca mais terei saudades, e ficarei feliz".

Com estes pensamentos comprou uma linda gaiola, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera.

Finalmente ele chegou, maravilhoso, com suas novas cores, com estórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu.

Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.

Foi acordar de madrugada, com um gemido triste do pássaro.

- Ah! Menina... Que é que você fez? Quebrou-se o encanto. Minhas penas ficarão feias e eu me esquecerei das estórias... Sem a saudade, o amor irá embora..."

A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas isto não aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ia ficando diferente.

Caíram suas plumas, os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio; deixou de cantar. Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava.

E de noite ela chorava pensando naquilo que havia feito ao seu amigo...
Até que não mais agüentou. Abriu a porta da gaiola.

"- Pode ir, pássaro, volte quando quiser...".

"- Obrigado, menina. É, eu tenho que partir. É preciso partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro da gente. Sempre que você ficar com saudades, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudades, você ficará mais bonita. E você se enfeitará para me esperar...".

E partiu. Voou que voou para lugares distantes. A menina contava os dias, e cada dia que passava a saudade crescia.

"- Que bom, pensava ela, meu pássaro está ficando encantado de novo...".

E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos; e penteava seus cabelos, colocava flores nos vasos...

"- Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje..."

Sem que ela percebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado como o pássaro. Porque em algum lugar ele deveria estar voando. De algum lugar ele haveria de voltar.

Ah! Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama...

E foi assim que ela, cada noite ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento:
- Quem sabe ele voltará amanhã..."

E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.
 






http://www.rubemalves.com.br/http://www.releituras.com/rubemalves_bio.asp

Basta um minuto por Cantinho Ternura

Um minuto serve para você sorrir:
Sorrir para o outro, para você e para a
vida
.
Um minuto serve para você ver o caminho,
olhar a flor, sentir o cheiro da flor,
sentir a grama molhada,
notar a transparência da água.


Basta um minuto para você avaliar a imensidão
do infinito, mesmo sem poder entendê lo.
Em um minuto apenas você ouve o
som

dos pássaros que não voltam mais.

 

Um minuto serve para você ouvir o silêncio,
ou começar uma
canção.
É num minuto que você dará o sim
que modificará sua vida... e basta.


Basta um minuto para você apertar a mão
de alguém e conquistar um novo amigo.
Em um minuto você pode sentir
a responsabilidade pesar em seus ombros:
a tristeza da derrota,
a amargura da incerteza,
o gelo da solidão,
a ansiedade da espera,
a marca da decepção
e a alegria da vitória...
Quanta vitória se decide num simples momento,
num simples minuto!


Num minuto você pode amar,
buscar, compartilhar, perdoar,
esperar, crer, vencer e ser...
Num simples minuto você pode salvar a sua vida...
Num pequeno minuto você pode incentivar
alguém ou desanimá lo!


Basta um minuto para você recomeçar
a reconstrução de um lar ou de uma vida.
Basta um minuto de atenção para
você fazer feliz um filho,
um aluno, um professor, um semelhante...


Basta um minuto para você entender
que a eternidade é feita de minutos.

Mensagem de um idoso

  * Se meu andar é hesitante e minhas mãos trêmulas, ampare-me...
* Se minha audição não é boa e tenho de me esforçar para ouvir o que você está dizendo, procure entender-me...
* Se minha visão é imperfeita e o meu entendimento é escasso, ajude-me com paciência...
 * Se minhas mãos tremem e derrubam comida na mesa ou no chão, por favor não se irrite, tentei fazer o melhor que pude...
 * Se você me encontrar na rua, não faça de conta que não me viu, pare para conversar comigo, sinto-me tão só...
* Se você na sua sensibilidade me vê triste e só, simplesmente partilhe um sorriso e seja solidário...
* Se lhe contei pela terceira vez a mesma "história" num só dia, não me repreenda, simplesmente ouça-me...
* Se me comporto como criança, cerque-me de carinho...
 * Se estou com medo da morte e tento negá-la, ajude-me na preparação para o adeus...
* Se estou doente e sou um peso em sua vida, não me abandone, um dia você terá a minha idade... A única coisa que desejo neste meu final da jornada, é um pouco de respeito e de amor... Um pouco... Do muito que te dei um dia !!! 

 (Desconheço o Autor)

http://www.cantinhoternura.net/

domingo, 26 de junho de 2011

Acredite

Acredite

Não deixe que a saudade sufo
que,

que a rotina acomode, que o medo
impeça de tentar. 
Desconfie do destino e 
acredite em você. 
Gaste mais horas realizando que sonhando, 
fazendo que planejando, 
vivendo que esperando
porque, embora quem quase morre esteja vivo, 
quem quase vive já morreu.

Sarah Westphal Batista da Silva

Agora Tu

Nascido nos limites da periferia
Onde os bondes não prosseguem mais.
Onde o ar é popular
É mais fácil sonhar
Que encarar a realidade.

Quanta gente jovem vai embora
A buscar mais daquilo que tem.
Talvez porque os socos recebidos
Para ninguém nunca os devolveu
E dentro doem ainda mais.

E aprendi que na vida
Ninguém nunca nos dá demais.
Mas quanto fôlego, quanta ladeira,
Seguir em frente sem nunca voltar-se.

E aí estás agora tu
A dar um sentido aos meus dias.
Está tudo bem do momento que estás tu.
Agora tu,
Mas não esqueço
Todos os amigos meus
Que estão ainda lá

E somos sempre mais sozinhos.
A esta idade não sabes, não sabes,
Ma quantas corridas, mas quantos vôos,
Seguir em frente sem chegar nunca.

Agora Tu - autor desconhecido

Agora Tu

Por causa deste amor os dois tem lindos sonhos para sonhar. Por causa deste amor duas vidas é cheia de amor. ....."Sonho do amor........ Um amor que teria o tamanho do Universo, a força das montanhas, firme como o subsolo . Mas sentiu que na vida nada seria diferente pois esse amor derradeiro encontrou , e quando parece que tudo quer desmoronar, que algo esta contra esse desejo de um amor especial .... Fica pensando se os sonhos valem a pena persistir na mente, pois sempre parecem se desfazer em pedaços persistindo em não se realizar... Tudo na vida é uma mudança constante, se sente que nem o amor pode ser eterno,desafiaremos o destino , mas se a vida não tiver sonhos será sempre uma vida vazia, sem sentido, e por isso sempre se deve manter os sonhos, alguns se irão realizar, outros irão modificar .... Palavras de carinho, sinais de afeto, todos vão crescendo, mas o amor, esse sempre está no coração, dos dois O amor magoa? Sim Vale a pena amar? Sim mas o mais importante é saber o que se quer e fazer com que a mágoa se vá dissolvendo e que a vida continue amadurecer a dois ..alma gêmea ....."Há vários motivos para não amar uma pessoa, e um só para amá-la, este sempre prevalece..."... (Autor Desconhecido)

terça-feira, 21 de junho de 2011

Labirinto por Renato Van Wilpe Bach

Era tarde na casa de campo e uma complicada operação de troca de telefonemas e roupas deixava minha prima e sua filha assoberbadas; meus tios desdobrados em servir a todos. Eu vestira as vestes de Ghandi e optara pela não violência.
Por fim conciliamos tudo, e a jovem mulher, recém saída da adolescência, pegou carona conosco – toda linda. Mais tarde sairíamos sozinhos, eu e minha prima, ávidos por colocar em dia o papo dos tantos meses que ficamos sem nos encontrar.
Numa dessas viagens de carro entre a chácara e o centro, passamos pela lateral de uma vila quase centenária, pérola da arquitetura pontagrossense, construída em 1926 pelo industrial Alberto Thielen, nomeada em homenagem à sua esposa e ocupada por décadas pela Biblioteca Municipal.
Ali debaixo de suas palmeiras, nas tardes frias de minha cidade infantil, perdia-me nos clássicos, lia os Dumas, Jules Verne e Victor Hugo em livros publicados em Portugal nas primeiras décadas do século XX, belissimamente encadernados, parte da coleção doada pelo casal de professores à Biblioteca que se desfazia em poeira e fungos, inadequadamente emprestados a qualquer um. Graças a Deus. Minha mãe reclamava, não entendia como eu podia gostar tanto daqueles livros velhos, cheios daquela ortografia antiga… mas no fundo se enchia de orgulho quando entrava comigo lá e as moças da recepção diziam-lhe que eu era o leitor mais assíduo do lugar. Tanto subi e desci por sua grande escada em cauda de vestido de noiva que, se fechar os olhos, ainda posso sentir suas pedras, já gastas, sob de meus pés.
Mais de uma década atrás, a Vila Hilda foi alvo de um longo processo de reforma e restauração. A biblioteca que ocupara o casarão, foi transferida para uma casa também enorme, mas sem graça, setentista. Idealizada como herança de um casal de professores à cidade – os professores Bruno e Maria Eney, a Biblioteca perdia, com a mudança, o charme e o aconchego.
Anos depois revi a casa e estranhei a pobreza de espírito que norteara sua “recuperação”. Uma verdadeira desfiguração modernóide em que caíram muros e fecharam-se os porões do primeiro andar, abrigo de jornais e revistas ancestrais. Transformada em Fundação Cultural, sua visitação pública ficou reduzida a uma pequena ante-sala de onde não pude passar.
Nesta última viagem, então, olho pro lado e de repente vejo o querido muro da vila, com suas gradinhas artisticamente trançadas em Inglaterra, a mesma escada desgastada, o mesmo jardim. Imagino logo as maçanetas em prata de lei e porcelana pintada, o desenho esmaecido e amarelado pelo aperto de tantas mãos. Meu coração se aperta, perdido entre a verdade de minha visita anterior e ecos da “Sonata” de Veríssimo, um de seus primeiros e melhores contos, no qual o protagonista volta ao passado de uma casa e sua gente.
Pergunto a meu tio que lugar era aquele e ele fala que é a antiga biblioteca, a Vila Hilda. Conta-me uma longa história que envolve edifício restaurado, na antiga Estação Ferroviária, para onde a biblioteca fora recentemente transferida, mas já não escuto mais nada. Interrompo e conto minha história, falo da visita à casa desfigurada e de minha decepção – mas todos me garantem que tal fato nunca ocorreu. Não sei mais em que acreditar. Mas o coração se aquieta, antevendo uma nova visita a aqueles jardins de minha infância – os mesmos! – ainda que sem o recheio dos livros a ocupar o prédio.
Quando chegamos ao restaurante, o chope desce como um laxante d’alma a este homem que não sabe mais a que universo pertence, se tomou a pílula vermelha ou a azul… Ponta Grossa me espera, logo volto para lá.


(Publicado no caderno Almanaque do jornal O Estado do Paraná, Curitiba, em 25 de junho de 2006)


Um dia meu e dela por Cláudia Pereira

Tá chovendo lá fora e eu penso em você. Nesta hora já deve ter almoçado, ou quem sabe, dorme ao lado dos bichinhos de pelúcia. Nossa gata repousa entre as tuas pernas e espia tal qual sonâmbula se ainda demoro pra chegar.
Teus olhos fechados formam um contraste com os cabelos envoltos no travesseiro. Tua boca entreaberta sussurra algo…Será o meu nome? Pode ser…ou não. Tanto faz. Mas, do lado de cá da cidade, as folhas correm soltas pelas ruas e eu sigo com um sorriso aberto dizendo baixinho: três anos. Sim, pensa que eu esqueci? Minha doce menina, impossível. Penso nisso há muito tempo. Queria te fazer uma surpresa. Te dar presentes caros. Te comprar rosas. Te encher de mimos. Mas, agora que chegou o dia…estou muda. Tudo o que sinto é este peito se encher de ternura e nem sei direito o que irei te dizer mais tarde. A noite vai chegar e terei que falar o que não consigo. Você sabe, sou tímida e orgulhosa. Faço de conta que sou forte…mas no fundo…você matou a charada: sou apaixonada e sonhadora.
É gostoso ter este segredo descoberto por alguém que tanto amo. Ninguém entende muito bem o que sou. Mas você…você..você….me conforta e me desnuda de forma tão simples. Sem brigas, sem perguntas, sem problemas.
Sou completa, sincera e absolutamente fiel ao que sinto neste nosso dia tão especial.
Te amo. E até quase acho desnecessário te encher de coisas caras….melhor que tudo isso será mesmo te cobrir dos meus beijos e afagos…
Que estes três anos se tornem longos…e eternos…e que eu possa repetir o meu ato de adoração

A casa da avó por Francine Hellmann


O cheirinho que sinto agora, chegando próxima à hora do almoço, é de bacon. A casa, pensava eu ontem ao chegar, mesmo passado um ano inteiro sem a ela retornar, acho-a familiar, a ponto de parecer-me que venho aqui todos os dias. Há coisas com as quais nos acostumamos, sabemo-las de cor, e isto sem nos darmos conta de como, visto que, contato freqüente com elas não temos. São infinitos pequenos contatos com grandes intervalos de tempo ao longo da vida que nos fazem conhecer tais coisas de forma muito íntima, como se sempre lá estivéssemos.
Assim me sinto todos os anos quando visito a casa de minha avó materna, em uma pequena cidade chamada Canoinhas, no planalto norte de Santa Catarina. A casa ainda possui a mesma fronte, e a cada ano parece mais desgastada. O mesmo jardim, sempre com pequenas mudanças que lhe dão um ar de novidade. O mesmo portãozinho que ao ser empurrado anuncia, com um barulho agudo e enferrujado, aos que cá dentro estão, a chegada de um novo visitante. É possível que alguns instantes após o barulho denunciante do portão, quem adentre pela porta seja um tio que mora próximo e vem apenas pelo prazer de estar com os parentes e com eles compartilhar um chimarrão. Ou ainda, é possível que quem venha seja um dos inúmeros tios e primos que nesta época hospedam-se na casa e que mais cedo tenha saído para buscar algum ingrediente que será utilizado no preparo de uma gostosa sobremesa. Ou então, mais raramente, o leiteiro ou o jardineiro…
Na sala de televisão uns tantos assistem alguma coisa, sempre há um ou dois solitários, se é que é possível que um mais um resultem em dois solitários, lendo algum livro na sala de estar. Estes livros podem ser ou não de “boa qualidade”, o mais provável, porém é que, na maioria das vezes, não sejam, visto que lembro de ter-me apegado à leitura a partir do exemplo das tias que passavam as férias lendo romances melodramáticos com nomes como “Sabrina em Paris” ou ainda “Paixão na Casa do Lago”. Na cozinha, é certo, sempre haverá a avó, acompanhada de outras tias preparando algum prato com um cheiro muito gostoso. Lá também é provável encontrarmos algumas primas que, salvo em algumas exceções, estarão sentadas à mesa folheando alguma revista ou ditando para tias e avó a receita do tal prato que, ah como cheira bem!
Para quem, como eu, acostumou-se com a vida agitada de estudante da cidade, os dias aqui se tornam intendentes, visto que o preparo da comida e o fazer-sabe-se-lá-o-quê sentada na cozinha não me agradam muito. São os dias do ano em que mais leio, mais penso na vida, mais revejo velhos filmes, mais jogo partidas dos mais variados jogos com os primos.
Os primos. Não são como as tias que a cada ano se parecem mais com si mesmas, os primos crescem. É estranho como depois de tanto tempo achamos que ao encontrá-los eles nos acharam mudados (porque sim, nós podemos garantir que mudamos muito), mas ao vê-los quem por pouco não cai para trás somos nós. Como eles cresceram, parecem até adultos, onde foram as crianças que brincaram conosco na infância? Namorados de primos são algo com o qual jamais nos conformamos… Mas em menos de um dia já parecemos crianças novamente e jogamos partidas de baralho até amanhecer e rimos muito nos lembrando de segredos e situações só nossas, alguém propõe brincar de “gato-mia”, olhamo-nos analisando a possibilidade, mas não! Já não somos mais crianças.
Ao fim de uma semana alguns começam a ir embora. Este ano sou uma das primeiras a me despedir, não passarei o reveillon com a família. Quinze minutos antes de ir sento no baú da cozinha, que fica ao lado dos três degraus mais significativos da minha vida e olho para minha avó, já tão velha, mulher castigada pela vida, olho para as tias, para os primos, para o fogão a lenha… Neste momento tenho a estranha impressão de que não vou voltar tão cedo, e que quando eu voltar as coisas já não serão mais tão iguais, do jeito que sempre foram.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O JEITO DELES - Martha Medeiros

O JEITO DELES

Martha Medeiros

    O que é que faz a gente se apaixonar por alguém? Mistério misterioso. Não é só porque ele é esportista, não é só porque ela é linda, pois há esportistas sem cérebro e lindas idem, e você, que tem um, não vai querer saber de descerebrados. Mas também não basta ser inteligente, por mais que a inteligência esteja bem cotada no mercado. Tem que ser  inteligente e... algo mais. O que é este algo mais? Mistério decifrado: é o jeito.

    A gente se apaixona pelo jeito da pessoa. Não é porque ele cita Camões, não é porque ela tem olhos azuis: é o jeito dele de dizer versos em voz alta como se ele mesmo os tivesse escrito pra nós; é o jeito dela de piscar demorado seus lindos olhos azuis, como se estivesse em câmera lenta.

    O jeito de caminhar. O jeito de usar a camisa pra fora das calças. O jeito de passar a mão no cabelo. O jeito de suspirar no final das frases. O jeito de beijar. O jeito de sorrir. Vá tentar explicar isso.

    Pelo meu primeiro namorado, me apaixonei porque ele tinha um jeito de estar nas festas parecendo que não estava, era como se só eu o estivesse enxergando. O segundo namorado me fisgou porque tinha um jeito de morder palitos de fósforo que me deixava louca – ok, pode rir. Ele era um cara sofisticado, e por isso mesmo eu vibrava quando baixava nele um caminhoneiro. O terceiro namorado tinha um jeito de olhar que parecia que despia a gente:
não as roupas da gente, mas a alma da gente. Logo vi que eu jamais conseguiria esconder algum segredo dele, era como se ele me conhecesse antes mesmo de eu nascer. Por precaução, resolvi casar com o sujeito e mantê-lo por perto.

    E teve aqueles que não viraram namorados também por causa do jeito: do jeito vulgar de falar, do jeito de rir – sempre alto demais e por coisas totalmente sem graça –, do jeito rude de tratar os garçons, do jeito mauricinho de se vestir: nunca um desleixo, sempre engomado e perfumado, até na beira da praia. Nenhum defeito nisso. Pode até ser que eu tenha perdido os caras mais sensacionais do universo.

    Mas o cara mais sensacional do universo e a mulher mais fantástica do planeta nunca irão conquistar você, a não ser que tenham um jeito de ser que você não consiga explicar. Porque esses jeitos que nos encantam não se explicam mesmo.



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RECOMEÇAR - Paulo Roberto Gaefke - http://www.sotextos.com/

RECOMEÇAR
 
Não importa onde você parou...
em que momento da vida você cansou...
o que importa é que sempre é possível e necessário
"Recomeçar".

Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo...
é renovar as esperanças na vida e o mais importante...
acreditar em você de novo.



Sofreu muito nesse período?
foi aprendizado...

Chorou muito?
foi limpeza da alma.






Ficou com raiva das pessoas?
foi para perdoá-las um dia...

E é hoje o dia da faxina mental...
jogar fora tudo que te prende ao passado...
ao mundinho de coisas tristes...
fotos... peças de roupa, papel de bala...
ingressos de cinema... bilhetes de viagens...
e toda aquela tranqueira que guardamos
quando nos julgamos apaixonados...

jogue tudo fora... mas principalmente...
esvazie seu coração... fique pronto para a vida...
para um novo amor...

Lembre-se somos apaixonáveis...
somos sempre capazes de amar muitas
e muitas vezes... afinal de contas...
Nós somos o "Amor"...
Onde você quer chegar?
Vá alto... sonhe alto... queira o melhor do melhor...
queira coisas boas para a vida...
pensando assim trazemos prá nós aquilo que desejamos...

Se pensamos pequeno... coisas pequenas teremos...
já se desejarmos fortemente o melhor e
principalmente lutarmos pelo melhor...
o melhor vai se instalar na nossa vida.
Recomeçar...
hoje é um bom dia para começar novos desafios.
Quando nos trancamos na tristeza...
nem nós mesmos nos suportamos...
ficamos horríveis... o mal humor vai comendo nosso fígado...
até a boca fica amarga.
Tá se sentindo sozinho? besteira...
tem tanta gente que você afastou com
o seu "período de isolamento"...
tem tanta gente esperando apenas um sorriso teu
para "chegar" perto de você.
Olha quanto desafio...
quanta coisa nova nesse mundão de meu Deus te esperando.
Que tal um novo emprego? Uma nova profissão?
Um corte de cabelo arrojado... diferente?
Um novo curso... ou aquele velho desejo de aprender a
pintar... desenhar... dominar o computador...
ou qualquer outra coisa...
Pois é...agora é hora de reiniciar...de pensar na luz...
de encontrar prazer nas coisas simples de novo.
Acreditou que tudo estava perdido?
Era o início da tua melhora...
Sentiu-se só por diversas vezes?
É por que fechaste a porta até para os anjos...

domingo, 12 de junho de 2011

Asas do destino - (Por: Marcos Woyames de Albuquerque)

Asas do destino
(Por: Marcos Woyames de Albuquerque)

Se era o meu destino, pois que fosse assim.
Naquela manhã o vento estava forte e mais frio que o de costume.
Do alto do penhasco eu avistava os primeiros raios de sol.
Desde que havia nascido, a altura não havia sido problema, mas hoje, especialmente hoje um certo receio me dominava.
Durante toda a minha vida meus pais me haviam preparado para aquele dia. Muito havíamos conversado e, apesar do receio, a ansiedade pela hora "h" se mostrava muito maior.
Não tinha medo de cair, isto já acontecera uma vez quando caí do ninho. Meu pai, um falcão rei, em um simples e espetacular mergulho, alcançou-me a meio caminho da morte certa. Não ficou impune a minha queda. No alto de minha coxa esquerda ainda resta a cicatriz deixada pela poderosa garra de papai.
Meu pai era um belíssimo exemplar de nossa espécie, talvez o maior falcão da região.
Seu piar era ouvido longe e tanto como ele, respeitado e temido por todos. Jamais alguém ousou invadir seu território.
Mamãe, como toda fêmea, tinha um porte menor, mas não por isso era menos bela.
Muito me orgulhava de meus pais.
Até aquele dia, haviam se revezado em muitos cuidados com minha criação.
Nem quero imaginar o quanto foi dura a decisão no momento de escolher entre meu irmão e eu. Foi a lei da natureza, eu era maior, mais forte, eu tinha mais chance de sobrevivência.
Enquanto não pude ficar só no ninho, cada um deles tomava conta de mim.
Era sempre assim, um comigo no ninho, o outro em busca do alimento, da caça.
Por falar em caçar... meu pai era um mestre nesta arte. Avistava seu objetivo a quilômetros de distância. Raríssimas as vezes em que o vi perder um ataque.
Meu pai tinha um nome a zelar... ave de rapina!
Não me canso de falar, o quanto eu me orgulhava e ainda me orgulho dele! Um dia ainda seria um falcão como ele.
Astuto, rápido, forte, seguro da minha capacidade, dono de um vôo régio.
Mas, a hora é chegada - frio na barriga - meu primeiro vôo.
Minha mãe passou muito de meu tempo de vida mostrando o que eu deveria fazer e agora, com sua asa aberta, era um exemplo de como deveria me posicionar, em relação ao vento.
Ela não fazia movimento algum, o vento ascendente, junto ao penhasco, batia em suas asas e pronto, mamãe se punha no ar. Diminuía a envergadura e pronto, de volta ao ninho.
Meu pai, sempre de poucas palavras, posicionou-se, no que agora sei, num ponto estratégico. Caso eu não conseguisse, ele novamente faria uso de seu mergulho veloz e de suas garras poderosas e, sabe lá Deus, eu ganharia uma nova cicatriz!
Lentamente, mas com segurança, mamãe usou seu bico e me levou, com leves empurrões, para a ponta da pedra onde meses atrás, junto com meu pai, construíra nosso lar.
O vento alvoroçava minhas penas. Minhas asas vacilantes não obedeciam a minha vontade de voar, mas ao meu receio de cair.
Minha mãe... incentivando.
Meu pai... calado, sério, observando.
Abri um pouco as asas e senti a força do vento empurrando meu corpo.
- Isso filho! Abre mais! ...Mãe é mãe!
Mais um pouco e quase levantei do chão. Meu corpo se desequilibrou, eu caí para trás.
- Levanta! Falou meu pai, com voz de quem quer ser obedecido.
Inseguro, trêmulo, me levantei e retornei à escarpa. Respirei fundo e ... asas abertas... pés fora do chão, sacode daqui pr'ali , dali pr'aqui.
- Estou voando, estou voandooooo!!!
- Calma! Mais uma vez meu pai grita. Minha asa esquerda se fecha com o susto, eu caio... me esborracho na pedra.
Pela primeira vez no dia de hoje, vejo meu pai com semblante calmo. Se aproxima e com toda paciência diz:
- Filho, voar é uma arte que requer ciência e consciência. Até que você assuma dentro de si, o vôo como seu meio de locomoção. Até que o incorpore aos seus reflexos, você terá que usar seu cérebro. Terá que pensar o tempo todo. Não deixe que a excitação tome conta da sua inteligência!
A forma tranqüila e firme com que meu pai falou naquele momento, me deu uma segurança tão grande, que prontamente me levantei e fui direto para a ponta do penhasco.
Respirei fundo, abri minhas asas e deixei que o vento me elevasse. A cada movimento, por mais leve que fosse, pude observar que meu corpo ia para um lado ou para outro.
Um leve mexer da cauda e prontamente era correspondido e aí, um novo movimento.
- Vamos filho, vamos nos afastar do penhasco. Não tenha medo, estou a seu lado.
Mais uma vez a voz firme de meu pai me dava segurança.
Um leve movimento de asas, um pouco mais para trás e lá fui eu... quanto mais atrás, mais veloz. Que coisa deliciosa é a velocidade!
- Calma filho, uma coisa de cada vez. Aprenda a sentir o vento, use as correntes de ar. Aprenda, vamos, aprenda!
Meu pai a meu lado, voando comigo, mais uma vez me sentia orgulhoso!
O dia foi passando e logo eu estava pronto, já voava sozinho.
Meus pais, lá no alto do penhasco, me observando.
O olhar terno de minha mãe e o peito elevado de meu pai diziam tudo.
Eu agora sabia voar, aos poucos iria caçar e um dia seria um falcão rei e dominaria um território, igualzinho a meu pai.
- Voar! Que coisa magnífica!
Me lembro de uma lenda que meu avô contou. Falava de uma gaivota que se rebelou. Uma gaivota especial que não quis ser como as outras e vir ao mundo apenas para se alimentar e procriar. Ela queria mais, ela queria voar. Voar mais alto, voar mais bonito, fazer manobras... fazer do vôo uma arte!
Fernão... acho que este era seu nome.
Fernão viveu e morreu por seu objetivo.
Talvez um dia eu faça isso... talvez um dia eu experimente novos vôos. Talvez um dia eu precise ousar mais.
Talvez um dia eu vá mais alto e mais rápido, mas por hora me contento em ser com eu pai... um falcão rei.
- Amor! Amor! Acorda! Acorda! Hora de trabalhar!
- Você dormiu lendo o livro do Richard Bach. Olha só, amassou o livro todo!
- Nossa, tive um sonho tão lindo! Não sou um falcão! Puxa, mas foi tão real!
- O que? Do que você está falando? Que falcão é este?
- Depois eu conto. Sabe amor, tenho tanto orgulho de meu pai!
- Amor, tem certeza de que está bem?
- Estou ótimo, ótimoooooooo!

sábado, 11 de junho de 2011

Sonhar como os Jovens sonham -Por: Marcos Woyames de Albuquerque)


(Por: Marcos Woyames de Albuquerque)

- O Sr. não vai atravessar?

- Hã?
- O Sr. não vai atravessar?
- Sim... claro!
- Precisa de ajuda?
- Hã?
- Precisa de ajuda?
- Está bem? O Sr. está passando bem?
- Estou, estou sim, apenas me perdi em meus pensamentos.
Não sei onde estava naquele momento!
Enquanto esperava para atravessar a rua meus pensamentos voaram, foram longe. Tão longe quanto a distância que nos separa. Tão longe quanto o tempo que nos separa.
Não sei exatamente quanto tempo fiquei ali, parado, mas foi o suficiente para que o guarda de trânsito, que posicionado do outro lado da rua, me tivesse notado.
Certamente foram alguns minutos nos quais repassei uma vida. Não a minha vida, mas a vida que sonhamos.
Sei que jamais haverá uma vida inteira em comum, sei que jamais haveremos de viver por uma vida. Estou consciente de que no máximo teremos minutos, horas, exagerando teremos dias, porém, jamais passaremos disso.
É um sonho? Claro que é! Então, como num sonho, nossos minutos, nossas horas talvez nossos dias, serão a nossa vida.
Viveremos tão intensamente, estaremos juntos tão intensamente, pertenceremos um ao outro com tanto fervor, que valerá por uma vida.
Não quero falar do que faremos, mas do que viveremos. Viveremos nossos sonhos. Todos aqueles sonhos que estamos alimentando há tanto tempo. Todos aqueles sonhos que à distância imaginamos, juntos ou cada um por si, mas serão os sonhos que imaginamos para nós.
O passeio descalço na areia, o molhar os pés nas ondas, as mãos dadas ao entardecer, os olhares de cumplicidade, os beijos roubados, os rodopios abraçados, o beber no mesmo canudinho, a felicidade estampada no rosto, o voltar a ser jovem e, como jovens... namorar.
Naquele instante, parado na calçada, junto ao meio fio, eu viajei. Em minha viagem imaginei. Em minha imaginação peguei em sua mão e, com sua mão segura na minha mão, eu me perdi. Me perdi no meu sonho, me perdi no nosso sonho.
Naquele instante, parado na calçada, junto ao meio fio, mão na mão, eu me perdi. Me perdi da vida real. Me encontrei na imaginação. Me encontrei no sonho...um sonho impossível que me faz amar você!

Carta de Esperança (Por: Marcos Woyames de Albuquerque)

Por: Marcos Woyames de Albuquerque)

Caro primo,Tudo bem?Como estão todos em sua casa? Fátima, os meninos?

 E os netos, já vieram?Aqui em casa, graças a Deus, todos estamos gozando de boa saúde.
O pequenino é que está cada vez dando mais trabalho.
Cada dia que passa fica mais sapequinha, acho que é sinal de muita saúde!
Sabe meu amigo, a vida tem sido um pouco difícil para nós no aspecto financeiro.
 Acredito que para todos, mas especialmente para nós, funcionários públicos.
 Já está fazendo mais de oito anos sem um reajuste, razão pela qual estamos tendo que nos virar para tentar manter o padrão de vida que as crianças foram acostumadas.
Maria, além de já trabalhar na prefeitura e ter os trabalhos de dona de casa, agora anda fazendo artesanato para ajudar no orçamento.
Eu, por outro lado, fiz um cursinho e estou fazendo meus bicos com manutenção de computadores, mas é serviço raro, nem sempre aparece.
 Algumas vezes bate um desânimo muito grande.
Dá vontade de largar tudo e sumir no mundo! Se não fosse a Maria e as crianças, juro que já teria feito isso!A situação anda tão difícil que estamos sendo obrigados a tomar algumas medidas de contenção de despesas.
 Uma delas é que não estou mais usando o carro para me deslocar de casa para o trabalho. Também pudera, com o atual preço dos combustíveis, em breve, automóvel será objeto de decoração!
Falta de grana é fogo, mas tem suas vantagens. Ontem cedo, quando vinha para o trabalho, em uma das paradas , observei pela janela do ônibus que um restaurante, ainda fechado, exibia um cartaz...
"Precisa-se de garçonete". Ao lado da porta, uma jovem de aspecto cansado e com cara de pouca esperança, um desânimo latente.
 Provavelmente cansada de ter chegado muito mais cedo do que a hora em que a vi. Desesperançada pela dificuldade de emprego e desanimada provavelmente por haver tentado outras vezes e não ter obtido sucesso.
 Chamou-me a atenção, além do fato de estar ali de pé tão cedo, o fato de ser a única a tentar a vaga, afinal estamos em tempos de empregos escassos!
Naquela hora, apesar de tudo, até da falta de aumento por tanto tempo, agradeci por ainda ter emprego!
Hoje, novamente me dirigindo ao trabalho, quando da passagem pelo mesmo local, notei que o cartaz já não estava lá.
 Pensei comigo mesmo... tomara que ela tenha conseguido o emprego!Foi assim pensar e logo a seguir a jovem dobra a esquina, se aproxima do restaurante.
 Seu semblante exibia uma leveza que não havia ontem. Seu andar era jovial, saltitante.
 Seu aspecto renovado, característico de quem readquiriu a crença na vida.
Bateu na porta fechada e logo alguém a abriu e ela, com um sorriso nos lábios entrou. Sinceramente, meu amigo, uma lágrima de emoção chegou a brotar de meus olhos Pode parecer loucura minha, mas agradeço por estar no ônibus nos dois momentos e poder presenciar o que acabo de descrever.
 Hoje, mais uma vez, a vida me dá uma lição.. onde até a esperança se foi, de um momento para outro tudo pode mudar e a vida ter continuidade.
 Como é bom estar vivo! Como é bom ter o direito de observar a vida! Como é bom descobrir que nada está acabado!
Dê lembranças minhas a todos.
Assim que as coisas melhorarem daremos um pulinho até aí e, quem sabe, faremos um churrasquinho como aqueles que costumávamos fazer.

sexta-feira, 10 de junho de 2011




A música na sombra, o ritmo no ar
Um animal que ronda no véu do luar
Eu saio dos seus olhos eu rolo pelo chão
Feito um amor que queima magia negra sedução
  • Como uma deusa você me mantém
    E as coisas que você me diz
    Me levam além
    Aqui nesse lugar
    Não há rainha ou rei
    Há uma mulher e um homem
    Trocando sonhos fora da lei
Como uma deusa você me mantém
E as coisas que você me diz
Me levam além
Tão perto das lendas, tão longe do fim
A fim de dividir
No fundo do prazer o amor e o poder.


Menino de Rua (Por: marcos Woyames de Albuquerque)

Criança pobre, pobre criança!
Por que vim ao mundo? Que erros cometi para pagar com tanto sofrimento? Quantas vidas serão necessárias para pagar meus pecados?
Um dia, por muitas, ou por nenhuma razão que justificasse, fomos expulsos de casa.
O violento cotidiano da favela não nos quis mais lá.
Minha mãe, meus 3 irmãos e eu. Todos no olho da rua, na amargura do olho rua.
O mais amargo da vida! Sem ter teto! Sem ter abrigo! Sem ter alimento!
O que já nos era pouco se perdeu. O que tínhamos por vestir se perdeu. Sem ter agasalho!
Nas idas e vindas do nosso triste passado conhecíamos nosso destino. Antes da casa, antes da favela, já estivéramos lá. Nos esperava o outro lado do muro. Um lado escuro e triste, porém um abrigo... um teto.
Lá não somos sós, muito menos únicos... somos centenas, milhares. Somos os que buscam o abrigo que há do outro lado do muro.
Os direitos são restritos... obrigações... tudo lá é obrigação!
Tudo o que temos somos nós, apenas nós, cada um de nós. Eu aos meus, eles a mim.
Sou criança, preciso da minha infância! Sorrir é meu direito! Sorrir não é obrigação. Preciso sorrir... é preciso sorrir. Mesmo quando não quero é preciso sorrir.
Não há castigo, só obrigação!
Um teto, um agasalho, um corredor escuro... fétido, úmido, bolorento.
Portas mil, vidas mil. Cada porta um drama! Cada vida sua trama!
Sofrer é normal, já não dói, revolta!
Do lado de dentro do muro, não sou dono de minha vida! Do lado de dentro do muro não sou livre! Sou só obrigação.
Nossa casa não é mais nossa. Nos tomaram as vidas. Nos tomaram as idas e vindas. Nos foi tomado o ir e o vir. Nos podaram a liberdade.
Agora, do lado de dentro do muro, só vou se me for permitido, só volto no horário devido... do lado de dentro do muro nos domam a liberdade.
Nossa casa, na favela, tinha as janelas abertas. A porta aberta, era pra ir e vir... criança era pra correr... viver!
Aqui, do lado de dentro do muro, não há janela, só grade. Não há porta, só autorização.
Aqui, sou livre para ir e vir, basta pedir... é preciso pedir. Só se alguém autorizar... é preciso assinar.
Do lado de fora do muro há o mundo. O burburinho da vida... a ida e a vinda, o vai e volta, o ir e vir!
Na favela eu era pobre, porém era nobre. Agredido pela sociedade, mas era livre! Honrado!
Aqui, do lado de dentro do muro, não há honra, não há nobreza, só há humilhação!
Subo no muro.
De um lado a necessidade. Agasalho, abrigo, alimento e também o sofrimento. Personagens vivos do viver em um abrigo público.
Sim subo no muro.
Do outro lado do muro, lá fora, está o mundo. Sem agasalho e sem abrigo. Alimento é só pedir. Já conheço o sofrer... não me dói, só revolta!
De cima do muro faço a escolha... me lanço no mundo.
Me jogo de cara na liberdade!
Quero viver, quero correr... sou criança!
Agora, do lado de dentro do muro, minha mãe é sofrimento.
Ela e meus irmãos são saudade. Isso sim dói! A revolta já faz parte de mim!
Sou criança quero correr. Preciso correr, preciso!
Corro, corro, tenho que correr!
Sem mãe, sem irmãos, sem obrigações. Sou livre!

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